Lesões do Ligamento Cruzado Anterior do Joelho

O joelho é a articulação mais complexa do corpo humano. Devido sua localização anatômica é particularmente vulnerável a traumatismos, especialmente nos esportes. Para funcionar adequadamente depende de quatro ligamentos principais e de múltiplos músculos, tendões e ligamentos secundários. Dos quatro ligamentos principais, dois estão situados nas laterais do joelho, o ligamento colateral medial (LCM) e o ligamento colateral lateral (LCL), e dois estão situados no centro do joelho, o ligamento cruzado anterior (LCA) e o ligamento cruzado posterior (LCP).

O LCA é composto por diversas fibras ligamentares, cada uma delas ligando um ponto específico da tíbia a um ponto específico do fêmur; a função primária desse ligamento é impedir que a tíbia escorregue para frente em relação ao fêmur. Além disso, previne outros movimentos anormais durante o funcionamento do joelho.

Devido sua localização anatômica, o joelho está particularmente sujeito a lesões, tanto por traumas diretos (quedas, acidentes de trânsito) quanto por traumas indiretos (entorses). O LCA é segundo ligamento do joelho mais lesado (atrás apenas do LCM). Nos Estados Unidos ocorrem cerda de 250.000 lesões do LCA por ano. A maioria dessas lesões ocorre sem contato direto no joelho, como por exemplo, quando um atleta correndo muda bruscamente de direção ou quando hiperestende o joelho depois de um salto.

No momento da lesão do LCA frequentemente pode-se ouvir um estalo; existe inicio rápido de dor e inchaço, que podem aumentar nos dois primeiros dias e então começam a regredir. Podem ocorrer lesões associadas, como lesões nos meniscos, na cartilagem ou em outros ligamentos.

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Lesão do LCA

 

O diagnóstico da lesão é baseado na história clínica, exame físico e nos testes ligamentares específicos; as radiografias servem para afastar lesões ósseas. A ressonância magnética é importante para mostrar lesões associadas, como dos meniscos e da cartilagem articular.

O tratamento na emergência deve ser enfaixamento articular, gelo, muletas para evitar o apoio do membro acometido e elevação do mesmo, para diminuição do edema. Em geral não se deve fazer imobilização gessada, devido à possibilidade de atrofia muscular.

A questão mais frequente após uma lesão do LCA é “eu preciso de cirurgia?” A resposta varia de pessoa para pessoa e deve ser basesda em diversos fatores, que devem ser avaliados conjuntamente pelo paciente e pelo médico.

Geralmente há indicação cirúrgica para jovens ou indivíduos com interesse na prática esportiva e nas frouxidões ligamentares mais graves, que determinem impotência funcional significante.

Cerca de um terço dos pacientes com lesão do cruzado anterior conseguem se adaptar à nova situação, sem reconstruir o ligamento, em geral modificando o tipo de atividade esportiva. Nestes casos deve-se restaurar a amplitude de movimento, realizar exercícios de fortalecimento muscular, melhora da proprocepção e do controle neuro-muscular.

A grande maioria, no entanto, não consegue e não deve praticar esportes que ponham em risco o joelho (aqueles que envonvel saltos ou movimentos giratórios), devido à possibilidade de entorses de repetição causadas pela instabilidade ligamentar. Essas novas entorses podem causar novas lesões meniscais e da cartilagem articular, facilitando a possibilidade de desgaste articular (artrose) a longo prazo.

A reconstrução cirúrgica não deve ser feita na urgência; deve-se aguardar um período médio de três semanas para que haja diminuição do quadro inflamatório inicial, ou até que a flexão do joelho seja maior que 90°.

Diversas técnicas cirúrgicas já foram desenvolvidas para o tratamento da lesão do LCA. Atualmente, a técnica mais comumente utilizada um enxerto criado com tendões retirados da região do joelho. Esse enxerto é passado por túneis ósseos perfurados na tíbia e no fêmur, na posição natural do LCA, e então fixado com parafusos ou placas. Com o passar do tempo, esse enxerto vai maturando, tornando-se um novo ligamento.

Médicos especializados em cirurgia do joelho dos Estados Unidos, Europa e Japão dão preferência pela técnica de reconstrução anatômica, que respeita as inserções ósseas do cruzado anterior e as características individuais dos pacientes.

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Cirurgia de Reconstrução do LCA
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Imagem Artroscópica da Reconstrução Realizada

A reabilitação após uma cirurgia de reconstrução do LCA exige tempo e trabalho duro. O retorno ao esporte só é permitido após uma série de testes específicos. Nos grandes centros especializados do mundo existe uma tendência de retardar o retorno do atleta à prática esportiva por cerca de um ano, para melhor recuperação neuro-muscular e prevenir uma possível recidiva ou lesão do lado oposto, pelo aumento da solicitação.

A taxa de sucesso da cirurgia é muito alta. Diversos estudos mostram que mais de 90% dos pacientes conseguem retornar às atividades esportivas e ao trabalho sem sintomas de instabilidade. Apesar da taxa de sucesso elevada, busca-se sempre melhores resultados. Com a utilização de técnica cirúrgica mais anatômica e natural e com um programa de reabilitação mais intenso e personalizado, esse sucesso pode ser maior.