Cinco mitos sobre a prótese de joelho
(por Dr. Julio C. Gali)

Mito nº 1 : meu organismo pode rejeitar a prótese ?


​​Talvez o temor mais comum dos pacientes seja que seu organismo possa "rejeitar" a prótese. As próteses geralmente são feitas de uma liga metálica de cromo-cobalto, que é inerte e biocompatível, ou seja, conciliável com o ser humano. Menos de 1% dos pacientes podem ser alérgicos ao metal e apresentar sintomas de pele, como eczema ou eritema.

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Na verdade, o que os pacientes chamam de "rejeição" normalmente corresponde à uma infecção, que pode acontecer em 1 a 2% dos casos, no máximo.
                 

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As infecções devem ser prevenidas antes, durante e depois da cirurgia.


Com exames apropriados o cirurgião pode avaliar, no pré-operatório, o estado nutricional e a imunidade do paciente, que avaliam sua capacidade de defesa contra os micro-organismos causadores das infecções. A glicemia deve ser controlada e os pacientes são aconselhados a não fumar.


Durante o ato cirúrgico são tomados vários cuidados que auxiliam a evitar infecções : controle da temperatura e fluxo laminar, na sala operatória, uso de antibióticos intravenosos, antissépticos na mucosa nasal, para combate ao Staphylococcus aureus, o principal causador das infecções, lavagem intra-operatória com antissépticos, evitar uso de sondas, procurar diminuir transfusões de sangue e o tempo de internação.


No pós-operatório são usados antibióticos apenas pelo tempo recomendado e deve-se evitar drogas que aumentem o sangramento, pelo risco de infecção em coleções sanguíneas.


De qualquer modo, também existe tratamento para as infecções que possam ocorrer nas cirurgias de artroplastia.


Mito nº 2 : eu posso ficar numa cadeira de rodas ?


Outro receio muito comum é que a pessoa submetida ao tratamento por artroplastia pode ficar na cadeira de rodas. Isso é extremamente raro e só pode acontecer em casos de infecções severas que não possam ser tratada com todas as medidas hoje existentes.

No entanto o contrário é verdadeiro: é bem mais frequente a pessoa cadeirante voltar a andar novamente depois da cirurgia, caso o motivo de sua deficiência seja uma artrose grave.


Mito nº 3 : eu vou sentir dor, depois da cirurgia ?


Existe ainda o medo de doer, depois da cirurgia. Nos dias de hoje, métodos de analgesia pré-empetiva (combate à dor antes de seu aparecimento) com medicações apropriadas, recursos como o bloqueio do nervo safeno, injeções intra-articulares e drogas usadas no pós-operatório fazem que essa cirurgia ser praticamente sem dor para o paciente ou, no máximo, tolerável.


Mito nº 4 : eu sou muito novo (a) para fazer uma prótese ?


Outra crença muito enraizada entre os pacientes é que prótese de joelho só podem ser feitas em pessoas com mais de 60 anos. Isso até poderia ser verdade, no passado. Infelizmente muitos clientes ouvem essas informações e passam a acreditar nelas como se fossem verdade absoluta.


Existem publicações, desde a década de 90, comprovando que, em indicações precisas, as próteses podem ser feitas em pessoas mais jovens, até mesmo na faixa de 30 ou 40 anos de idade.


Hoje, com a mudança no perfil dos pacientes acometidos com artrose do joelho (mais jovens, mais ativos, mais pesados, com maior sobrevida) existe a necessidade da cirurgia mais precoce.


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Também houve evolução quanto ao tipo de prótese utilizado para os pacientes mais jovens. Próteses sem cimento, revestidas de hidroxiapatita ou outra forma de osteointegração, requerem menor ressecção de osso e também podem garantir menor perda óssea quando for necessária sua substituição.


Quanto ao tempo de durabilidade, 95% das próteses duram quinze anos e 90% duram 20 anos. Não é uma longevidade pequena ! Será que existe algum carro, geladeira ou fogão que dure quinze anos sem nenhum conserto ou troca/manutenção de alguma peça? Depois do desgaste natural de uma prótese é possível sua troca, quando o paciente já terá aproveitado uma parte considerável de sua vida.


Não há porque condenarmos ao sofrimento e à limitação de uma vida mais ativa, pessoas com problemas passíveis de tratamento, até que aguardem uma idade pré-definida, sem base científica, para o tratamento adequado.


Mito nº 5 : eu sou muito velha(o) para fazer uma prótese ?


Este receio é muito referido por pessoas acima dos 70 anos. A análise etária deve ser feita mais pela idade biológica do que pela idade cronológica da(o) paciente. A artroplastia do joelho é uma cirurgia segura, desde que todas as precauções sejam cumpridas. A liberação para cirurgia somente é feita se a(o) paciente apresentar condições clínicas compatíveis com o procedimento.


Essa averiguação é feita por exames clínicos, laboratoriais e de imagem. Deve haver permissão para cirurgia pelo clínico, ou cardiologista, e pelo anestesista da equipe cirúrgica.


Nosso paciente mais velho tinha 88 anos, na época da cirurgia. Sua opção pelo tratamento cirúrgico foi porque ele não conseguia mais dirigir ! Obviamente ele possuía segurança clínica para o tratamento. A última vez que o vimos ele estava com 92 anos!


Uma senhora de 85 anos, com marca-passo cardíaco, quis ser operada para poder passear, ir ao shopping, etc. Ela estava limitada pela dor, sendo obrigada a usar uma cadeira de rodas.


No caso de pacientes mais idosos os procedimentos de segurança são ainda mais rigorosos. Todas atitudes visam diminuir a chance de descompensação. O anestesista avalia, no pré-operatório, qual a melhor anestesia a ser indicada. Na cirurgia, este profissional usa uma manta térmica, para manutenção da temperatura da (o) paciente. Controla rigidamente a administração de líquidos para repor as perdas, a fim de que não ocorra desidratação ou aumento do volume circulatório, que poderia comprometer o coração.


Durante a cirurgia pode não ser recomendável o uso de garroteamento, para que não haja mudança brusca na pressão arterial, que poderia ocorrer na soltura do garrote. O cirurgião deve minimizar a agressão tecidual e a perda sanguínea.


Devem ser evitadas drogas opiáceas no controle da dor pós-operatória, para prevenir desequilíbrio neurológico. Pode ser necessário que o primeiro dia de pós-operatório seja feito numa unidade de terapia semi-intensiva, para que possa haver acompanhamento clínico próximo e que sejam feitos exames laboratoriais para detectar alterações de glicose, eletrólitos e de gases do sangue, com possibilidade de correção imediata, antes que o paciente possa descompensar.


Vale a pena ressaltar que já existem trabalhos científicos comprovando que pessoas operadas para tratamento de artrose têm maior sobrevida do que aquelas com artrose e que não operaram, pelo benefício que a maior mobilidade obtida pela cirurgia pode proporcionar ao sistema cardiocirculatório, e a consequente possível melhora da glicemia e das gorduras do sangue.


De qualquer modo, é altamente recomendável que os pacientes que necessitem de uma prótese de joelho procurem um cirurgião com capacidade comprovada, experiente e atualizado, pois essa é a maior garantia para indicações precisas e contra a ocorrência de complicações potencialmente evitáveis.